Secretaria de Cultura


Dia do Samba

Relembrando a história do samba

De 1903 a 1906, o Rio de Janeiro teve como prefeito o engenheiro Francisco Pereira Passos, que estudara em Paris e lá presenciara a grande reurbanização do século 19. Suas ideias arquitetônicas vieram ao encontro dos anseios do novo Presidente Rodrigues Alves (1902-1906).

No discurso de posse, afirmou que seus objetivos eram “atrair mais imigrantes, remodelar o Porto do Rio de Janeiro e reurbanizar a cidade”. Com a reforma de Pereira Passos, que desmontou o sistema habitacional do centro do Rio – abriu avenidas, como as de Paris, e demoliu habitações coletivas –, a população proletária do centro foi empurrada para a Zona Norte. Uma grande parcela refugiou-se na chamada Cidade Nova, um trecho da atual Av. Presidente Vargas.

É o início também da ocupação dos morros na região, entre eles o Morro da Favela, cujo nome se expandiu para designar o complexo habitacional de barracões que desde então foi adotado. Na Cidade Nova, à Rua Visconde de Itaúna, 117, situava-se a casa de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, a mais famosa das “tias” baianas – herdeiras das tradições culturais africanas e encarregadas de transmití-las ás gerações futuras.

O marido de Tia Ciata, o também negro e baiano João Batista da Silva, havia cursado medicina em Salvador e por conta da formação ocupava bons empregos e contava com o respeito da polícia. A casa da Tia Ciata exalava a cultura africana: dança, culinária, cultos religiosos (candomblé) e ritmo. Pode ser considerado um dos berços do samba e, onde surgiu o primeiro samba a ser registrado em disco, “Pelo Telefone”.

No início do século 19, o samba era apenas ritmo. Não havia letras. Alguns anos antes, a partir de 1880, surgiu um gênero totalmente instrumental: o choro. Suas origens brancas – influenciadas pela polca da Boêmia e pela valsa da Alemanha ou da França – o tornavam aceitável pela elite e, por conseguinte, pela polícia, que não se incomodava com o som das rodas de choro que se ouvia nas salas das residências da Cidade Nova.

Quem passasse à porta da casa da Tia Ciata também ouviria a música dos salões. O choro, porém, funcionava como disfarce para que, no fundo, se fizesse samba. Como disse Pixinguinha: “O choro tinha mais prestígio naquele tempo. O samba era mais cantado nos terreiros, pelas pessoas mais humildes. Se havia uma festa, o choro era tocado na sala de visitas e o samba, só no quintal, para os empregados”.

O período do presidente Wenceslau Brás (1914-1918) marcou a consolidação do samba. Além de tocarem nos fundos de quintais, os sambistas se encontravam na festa de outubro, em comemoração à Natividade de Nossa Senhora, organizada pela comunidade portuguesa do Rio desde o final do século 18 – a Festa da Penha. Logo, os negros foram se incorporando à festa e, como não poderia deixar de ser, a mistura cultural fundiu cultos católicos ao candomblé, à capoeira – o sincretismo.

Tia Ciata era uma das baianas que montavam suas barracas com comidas e bebidas. Sempre à espreita estava a polícia à procura de algum motivo para reprimir o samba. A Casa Edison, de Fred Figner, não ficou indiferente a esse movimento e começou a incorporar sambas e sambistas em seu elenco. O selo Odeon lançou, entre 1912 e 1914, “Descascando o Pessoal” e “Urubu Malandro”, classificados como sambas no catálogo da gravadora.

Entretanto a história “oficial” acabou registrando o ano de 1917 como o marco na história fonográfica da maior expressão cultural popular brasileira. Data deste ano a gravação daquele que é oficialmente considerado “o primeiro samba em disco”: Pelo Telefone, na voz de Manuel Pedro dos Santos (Baiano).

A autoria é polêmica. Ao que tudo indica, tratou-se de uma criação coletiva. Esse momento pode ser entendido como o início de um processo de ruptura entre os compositores de samba. De um lado, aqueles que faziam samba como manifestação folclórica das tradições culturais africanas e, de outro, sintetizados na figura de Sinhô, conhecido na época como o “rei do samba”, os sambistas urbanos que buscavam profissionalização.

O 2 de dezembro como dia do samba tem um motivo curioso: Ary Barroso, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos compôs o samba  “Na Baixa do Sapateiro”, que tinha uma letra que exaltava a Bahia, sem nunca ter visitado aquele estado.

Na primeira vez que ele pisou em Salvador, em 2 de dezembro de 1938, o vereador Luis Monteiro Costa, aprovou uma lei que declarava que aquele dia seria o Dia Nacional do Samba, uma forma de homenagear o compositor.

Fonte: Rádio Planalto